Roda de Conversa


Momento dificinho esse que estou vivendo. Não vejo a hora de encerrar esse ciclo, mas para encerrar esse ciclo ainda tem muito trabalho e o desafio é terminar a pesquisa do doutorado. Tem horas que entristeço: não sei se tem valido a pena tanto esforço. Fiquei mais barriguda, mais encurvada. Acho chato passar o dia em frente a um computador garimpando as falas e tentando criar explicações para o que vi e  escutei dos profissionais e usuárias. Fico brava com as perguntas mal-feitas. Sou exigente como que escrevo e faço. Tem horas que acho que minha pesquisa vai iluminar um assunto pouco debatido, tem horas que acho que não servirá para muita coisa, mas somente para eu aprender a respeitar e valorizar o que os outros escrevem. Ô mulher teimosa, sempre buscando um desafio. Vamos em frente. Força!



Escrito por Stella Maris às 09h10
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O dia termina e ainda estou aqui. O prédio quase vazio. O céu azul e rosa. Dia de muito trabalho. Muita conversa, consensos-discensos, mas sinto que o que faço é importante, é responsável. Gosto dessa sensação do trabalho honesto. Não sei o que seria de mim sem minha capacidade para o trabalho. Será que eu faria um outro projeto na vida? Quem sabe a maturidade não vai me mostrando essa necessidade de mudar o ritmo e ir também desapegando dessa necessidade visceral de trabalhar, trabalhar , trabalhar. Preciso aprender a ficar a toa. Meu filho me esnina isso. E ri da minha formiguice...



Escrito por Stella Maris às 19h08
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Nossa, faz tempo que não passo por aqui! Por um lado é bom porque esse espaço surgiu da necessidade de desabafar e registrar um momento de mudança, de adaptação a uma nova condição, um novo trabalho, uma nova cidade e até uma nova profissão. A vida tem sido corrida e o desafio agora é a escrita da tese. Os dados já foram registrados, as entrevistas feitas e transcritas. Agora é análise, é inspiração (pouca) e transpiração (muita). Construir a competência de pesquisadora é o desafio do momento. Ando me sentido burra, sem capacidade para essa tarefa. A resistência vem sob a forma da preguiça e do sono (pego um texto para ler e vem aquele cansaço...). Lembrei da Macabéia, a personagem simplória do romance derradeiro da Clarice Lispector, a Hora da Estrela. Retomei a leitura romance e me identifico com ele: Clarice o escreve quando já está doente (minha saúde está muito bem, mas já me sinto mais vulnerável, mais envelhecendo, mais para dona Stella do que pra Stellinha) e cria um narrador homem que vai explicitando como é difícil seu processo criador dessa estória, dessa personagem. Alguns trechos que me tocam muito:

"Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados".

"Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar "quem sou eu?" cairia estatelada e em cheio no chão. É que "quem sou eu?" provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto. A pessoa de quem vou falar é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham."

"-Eu não entendo o seu nome, disse ela, Olímpico? 

Macabéa fingia enorme curiosidade escondendo dele que ela nunca entendia tudo muito bem e que isso era assim mesmo. Mas ele, galinho de briga que era, arrepiou-se todo com a pergunta tola e que ele não sabia responder. Disse aborrecido:

-Eu sei mas não quero dizer!

-Não faz mal, não faz mal, não faz mal... a gente não precisa entender o nome."





Escrito por Stella Maris às 19h22
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"A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai mas ...eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas." Manoel de Barros



Escrito por Stella Maris às 21h40
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"Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer."
Clarice Lispector




Escrito por Stella Maris às 19h17
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Uma experiência

Ontem participei com amiga de uma sessão de terapia comunitária numa ONG que ela coordena. Uma grande mulher, uma médica que se dedica voluntariamente, depois de uma jornada como clínica em um posto de saúde, ao trabalho com dependentes de álcool e drogas de um bairro periférico do Butantã. Fizemos uma parceria na condução da sessão. Havia mulheres de meia idade, e algumas mais velhas com queixas de dores pelo corpo, desânimo, sofrimento com problemas na família. Uma delas trouxe o marido. Havia também um rapaz de vinte e poucos anos que sempre está nas terapias, e que por falta de moradia em São Paulo está alojado nesta ONG e recebendo apoio dessa amiga médica enquanto tenta arranjar a vida. O rapaz apresenta seu sofrimento com uma fala muito hostil, dizendo que não acredita mais nas pessoas, em Deus, que chegou no fim da linha, pois sua vida é uma sucessão de fracassos. Fala com muita amargura, chegando até a ser grosseiro com as pessoas. Em seu discurso sempre há culpados para as coisas que não dão certo na sua vida: se arruma um emprego, o chefe é um folgado, se escreve um projeto de teatro (tem sonhos de uma vida artística), os outros não lhe abrem as portas. Sua fala mobiliza demais as pessoas que acabam por escolher como tema da terapia o sofrimento desse moço. Primeiro demos espaço para ele explicitar com mais detalhes os seus fracassos quotidianos e buscando fazê-lo refletir no fato de ele ter sempre expectativas tão altas que acaba criando situações que antes de se iniciarem já estão fadadas a não dar certo, numa espécie de auto-boicote. Mas ele continuava com o discurso do vou-me-matar. Ate que a minha  parceira lhe diz: "então você morreu. Deita aí no chão". Ele se deitou como um defunto, ela cobriu seu rosto com um casaco e disse aos presentes  que agora estávamos no velório do rapaz. Pediu aos presentes que montassem a cena de seus familiares. Uma mulher fez a mãe e começou a dizer o quanto sofria com o suicídio do filho, que ele iria lhe fazer falta. Um senhor fez o pai e  e lamentava a impulsividade e a falta de paciência do filho, que esse seu jeito poderia mudar  se ele passasse a olhar a vida de outro modo. E todos os presentes foram convidados a falar sobre o significado daquele suicídio para cada um. Ao final, minha parceira  o abraça e pede que todos o levantemos juntos e assim ficamos todos abraçados ao redor dela e dele numa grande massa humana. E algumas pessoas choravam e diziam falas de esperança para o rapaz e do quanto sua vida era valiosa. Depois o colocamos num colo coletivo e o embalamos ao som de um nana-nene. E vieram os risos e a certeza de que viver vale a pena. E saímos leves , apesar de cansados, dessa experiência! Saí admirando ainda mais essa amiga e aquelas pessoas presentes pela sua sensibilidade. Um dia e tanto, né?



Escrito por Stella Maris às 20h34
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Olha o podrão aí!

 

O



Escrito por Stella Maris às 10h29
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Carisma

Carisma é assim: ou você tem ou não tem. É um certo magnetismo pessoal que atrai e envolve as pessoas que estão ao redor do ser carismático, e esse ser nem precisa ser bonito, e nem precisa ser gente. Dia desses entrei num ônibus cheio, manhã paulistana, os passageiros com aquelas caras de zumbis, ainda sonolentos, alguns com fones ensimesmados em suas musiquinhas. E o cobrador nos cumprimentava com um simpático bom-dia. Ia pedindo gentilmente que as pessoas dessem o famoso 'passinho à frente' para acomodar aqueles que entravam. E quando desciam ele dizia 'tenha um bom dia, bom trabalho'. Certa hora olhou pra mim e me perguntou: 'quer um cafezinho passado agora?' Eu curiosa disse: 'aceito'. E ele tira da sua bolsa uma garrafa térmica e me serve em um copo de plástico. E eu viajei tomando um cafezinho quentinho! E lá na Federal tem muitos cachorros espalhados pelo câmpus, mas tem um bem especial, o Podrão, um mestiço de vira-lata e 'rotivailer' que fica circulando nas lanchonetes e nas salas de aula. Conheci o Podrão num intervalo de um simpósio que eu fazia, onde colocaram uma mesa com lanches, e as pessoas davam pão de queijo ao cachorro preto que ficava olhando com cara de pidão. Um professor me falou: 'o nome dele é Reitor, porque quando teve eleições para reitor foi um dos mais votados, embora não tivesse se candidatado'. Depois fiquei sabendo que o nome dele mesmo era Podrão, que tem esse nome porque entra nas salas de aula e solta umas 'bufas' bem sinistras. Ele tem uns onze anos, e é super-paparicado pelos alunos, que fazem vaquinha para levá-lo ao veterinário, já foi personagem de vídeo produzido pelos alunos, e o mais interessante é que ele assiste atentamente a muitas aulas. Assistiu a cursos inteiros de filosofia, linguística, cálculo. É o aluno que menos falta. Tem até uma comunidade dele no Orkut 'Podrão, o cão da Federal' com mais de 1000 membros. Carisma, é carisma mesmo!



Escrito por Stella Maris às 00h06
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Começo triste esse de 2010, com chuva fazendo estragos e tirando a vida de tanta gente. E terremoto devastando um país já tão pobre e cheio de problemas sociais. O único saldo bom disso tudo é que nessas horas os humanos acabam desenvolvendo o que têm de mais bonito dentro de si: a solidariedade. Nessas horas as diferenças se anulam, e todos se unem em um ideal comum: salvar, confortar, cuidar. Que pena que depois que o sangue esfria as causas e as possíveis prevenções para essas tragédias são esquecidas. As encostas voltarão a ser ocupadas como parte do jogo da especulação imobiliária que empurra os mais pobres para os lugares mais insalubres. Os holofotes se desviam do Haiti e seu povo volta a ficar entregue à própria sorte. Muito tocante e bonita a fala que Zilda Arns fez sobre a necessidade do cuidado com a saúde e dignidade das crianças, levando a experiência tão bem sucedida da pastoral da criança no Brasil,  que hoje vive uma realidade bem melhor do que já viveu a partir da mobilização de muitas comunidades. Tão simbólica sua morte junto desse povo. Que essas mortes não nos façam perder a esperança na reconstrução. Acho que o mundo podia fazer bem a si mesmo ajudando aquele povo a se tornar uma nação forte: apoiá-los não só com comida e primeiros socorros, mas apoiá-los na reconstrução das casas, da infraestrutura urbana, das relações comunitárias, apoiá-los com tecnologias para melhorar o sistema de saúde e educacional. Acho que o Brasil poderia ser um bom parceiro nisso. Me deu vontade de estar por lá em algum momento, abraçar as pessoas, chorar junto com elas suas perdas mas também emprestar uma mão amiga para reconstruir um novo futuro. Penso na dialética da destruição-reconstrução e no quanto cada parte do par dialético é tão distinto: é possível destruir uma cidade inteira em segundos, mas para construí-la é necessário muito mais tempo e investimento. Por isso é mais fácil ser destrutivo do que construtivo. O trabalho de produzir vida, de construção é muito mais lento e trabalhoso: escrever um livro, consturir uma casa, preparar uma refeição, são ações que requerem tempo, habilidades, investimento. Construir é demorado mas muito necessário. Que as forças de vida sejam mais fortes nesse ano, e que a esperança nos mova para a construção de um novo mundo neste mundo.



Escrito por Stella Maris às 01h10
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E Dezembro chegou. Sensação de dever quase cumprido. Ainda mais uma semana intensa de correções, avaliações, fechamentos, balanços, confraternizações, programações para o ano que chega. Depois disso: descanso. O corpo tá pedindo. A alma tá pedindo. A marca de 2009 foi a mudança. O corpo demorou prá acostumar. Muito trabalho psíquico, muita elaboração. Perdas. Ganhos. Quase endoido, mas tô sobrevivendo, crescendo e aprendendo. 2010 precisa ser mais leve senão o coração não aguenta. Mas o saldo é bom. Agradeço aos deuses, santos e orixás a possibilidade de escolher meus caminhos. Que bom o gosto da liberdade. Liberdade de escolher, de ousar, de desafiar. Me sinto gente grande. Potente. Contente. Que bom.



Escrito por Stella Maris às 21h28
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Dia desses meu filho apareceu em casa com um livrinho bem legal, Zen em quadrinhos, com várias estorinhas que ilustram o que é o zen. Gostei muito de uma delas que é mais ou menos assim: uma mulher chorava o dia todo em frente a um templo e um homem a indaga o porquê daquele choro. Ela diz: "tenho duas filhas, uma casada com um fabricante de sapatos e uma casada com um fabricante de guarda-chuvas. Choro porque quando chove um dos meus genros não vende sapatos e quando faz sol o outro não vende guarda-chuvas". O homem aponta que ela deveria ver a situação por outro prisma: quando chove um dos genros vende guarda-chuvas e quando faz sol o outro vende sapatos, então ela deveria se alegrar, e de fato ela assim o fez. Isso me fez pensar que muitas vezes só olhamos uma situaçao por um prisma e quando ampliamos o olhar as coisas podem ter outra carga prá nós. Essa vale prá mim que tendo a ver as coisas por um prisma muitas vezes derrotista.



Escrito por Stella Maris às 18h38
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Sinto saudades

De pessoas, de um tempo, de algumas possibilidades

Dobrei à esquerda (ou à direita?)

Novo caminho

Curiosidade, busca do novo, vaidade?

Rumo para uma maior felicidade?

Não importa.

No fim a gente sempre vai dar no cemitério.

 



Escrito por Stella Maris às 07h59
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Junto palavras como quem junta sucata

Algumas se aproveitam

Outras se reciclam

Outras se descartam.



Escrito por Stella Maris às 07h53
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Ando desanimada

Pago meus carnês em dia

E nunca fui sorteada



Escrito por Stella Maris às 21h41
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Sou uma cobra trocando de pele.

me arrasto e sinto a casca se despregando

Uma pele nova ainda sensível, ainda frágil se desprega da casca ressecada

Nova pele, nova identidade

As metamorfoses tão necessárias

O medo do novo corpo

Sou uma cobra trocando de pele

 

 



Escrito por Stella Maris às 20h17
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